domingo, 2 de outubro de 2011

Se tivesse menos ansiedades morais, teria sido excelente

Com roteiro de Bergman e dirigido pela sua ex-mulher e ex-musa, a atriz e diretora Liv Ullmann, Trolösa (Infiel) é um filme de caráter quase autobiográfico, para ambos os lados: Bergman teve um relacionamento com uma mulher casada, que acabou em gravidez e em briga na justiça entre ela e o marido traído pela guarda dos filhos, enquanto Liv deixou o marido para viver com o diretor, com quem também teve uma filha. A arte que imita a vida. E por isso mesmo, um filme forte, sincero e destruidor.

Infiel conta a história de Marianne, uma atriz casada com o maestro Markus, com quem tem uma filha, Isabelle, e uma vida feliz, incluindo aí elementos como sucesso profissional, bens materiais, amor, sexo. Tudo em abundância. Mas um dia, tomada por uma paixão inexplicável e imprevisível, Marianne passa a ter um relacionamento secreto com David, um homem neurótico, ciumento e autodestrutivo, e o melhor amigo do marido. E aí começa a tragédia: desejo cego e incontrolável, traição, obsessão, dependência da paixão romântica, omissão, descoberta da infidelidade, humilhação, disputa pela guarda da pequena Isabelle, divórcio, culpa e dor. Muita dor. No fim, são todos infiéis. E só o que sobra (na ficção) é Isabelle. E (na realidade da ficção) o velho diretor, que traz à tona a existência de todos os personagens.

Meu corte vai para a cena em que Marianne reconhece a contradição em que vivia (seguida da descoberta da traição pelo marido e início da tragédia):

“Eu tinha dois homens. Foi mais fácil do que pensei. Se tivesse menos ansiedades morais, teria sido excelente. Até mesmo divertido.”



Somos mesmo, assim, tão dependentes da paixão, do amor romântico? Ou melhor: o ser humano vive sem ele? É inesperadamente acometido por ele, como um vírus que se pega pelo ar? Ou está sempre buscando-o?...

Há quem diga que o amor romântico seja como uma doença (leia Heloisa)... concordo.

E quanto ao nosso comportamento sexual enquanto espécie humana? Somos uma espécie monogâmica? Poligâmica? Onde entra a infidelidade? Há quem diga que na escala da poligamia, estamos exatamente no centro. Nos 50%. Em cima do muro. Um pouco pra direita e nos tornamos poligâmicos como o roedor da montanha (Microtus montanus). Um pouco pra esquerda e seremos monogâmicos como o roedor da pradaria (Microtus ochrogaster). Daí a eterna insatisfação... (leia O enigma da monogamia, apenas como curiosidade...).

De fato, inúmeras pesquisas são realizadas e artigos não param de sair sobre o tema. Com resultados diversos. Mas desvencilhar “natureza” de “cultura” é um pouco mais complicado... Daí as “ansiedades morais”, que surgem da contradição de um desejo físico e emocional a um comportamento adequado e moral.

“Eu me repreendo. Eu devia estar contente.” – Marianne diz.

Uma coisa é certa: se o amor romântico chega, ele arrebenta. Mas se chega, é porque deixamos ele chegar.


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