domingo, 23 de outubro de 2011

Experimente ler o mesmo livro dez anos depois...

“Uma obra de arte lembra a vocês, o que vocês são agora.” – Kepesh diz.

E assim começa Elegy (ou Fatal, segundo nossos tradutores...). Baseado no romance “The Dying Animal” de Philip Roth, o filme conta a história de David Kepesh, um homem de meia-idade, professor e crítico de literatura, que não se contenta em envelhecer “como outros de sua idade”. Separado de sua ex-mulher, e julgado com rancor pelo filho, confidencia sua vida ao melhor amigo George, e recebe visitas regulares de sua antiga amante Carolyn, sendo incapaz de se comprometer com uma mesma mulher. E nesse contexto, conhece Consuela, sua jovem e bela aluna cubana, com quem passa a ter um relacionamento tão intenso quanto conturbado, na medida em que não consegue lidar com a diferença de idade e expectativas, e com a beleza e juventude que exalam dela.  Um verdadeiro poema lírico sobre desejo e morte. Sobre a fragilidade da existência.

Meu corte vai para duas cenas:
Cena 1 – A surpresa da velhice (“A velhice não é feita para covardes.”);
Cena 2 – A invisibilidade da beleza feminina (“Ficamos tão deslumbrados com o exterior que não exergamos o interior.”).

A primeira cena nos confronta com a idéia do envelhecer conforme os padrões, e nos faz a pergunta: “Pode ‘Guerra e Paz’ tornar-se um livro diferente porque o lemos?”. E se o relermos dez anos depois? Com certeza, quem já leu um mesmo livro com um certo espaço de tempo vai ter a resposta na ponta da língua. E mesmo quem nunca o fez, consegue imaginar o óbvio. E isso vale para um filme, uma pintura, qualquer obra de arte. Mas e se algo dentro de nós nunca mudar? E se nosso corpo decadente continuar a abrigar uma mente em plena ascensão? O que é envelhecer com coragem?



A segunda cena fala sobre beleza. Beleza exterior feminina. Somos sempre vistas como conchas? E o contrário é verdadeiro? Definitivamente não. Mulheres costumam erotizar a personalidade masculina. Uma mistura de inteligência com virilidade. Não ficamos muito tempo contemplando a concha. Ao mesmo tempo em que podemos começar a enxergar pérolas em conchas, à primeira vista, sem charme.



Uma elegia sobre a coragem de um homem sábio em viver seus próprios sentimentos e desejos, ou sobre a sua falta de coragem que passa a ser revista diante da proximidade da morte?

De uma forma ou de outra, um filme que merece ser sentido. Que me fez chorar alguns litros de água (eu, que não choro tanto assim). Estamos envelhecendo...


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