domingo, 30 de outubro de 2011

O Dilema do Drogado

Mulher histérica. Cheiro de morte. Silêncio. Desespero. Criança morta. Putrefação.
Ele devia estar chorando há dias. Mas ninguém ouviu.
Um grupo trancado numa casa, depois de dias se drogando pesadamente com heroína "por diversão", encontra o bebê morto de fome ainda no berço. Ninguém ouviu ele chorando. Ele devia estar chorando há dias.
Mark se depara com o Dilema do Drogado:
Isso é motivo para parar de usar drogas? Ou é motivo para usar mais ainda?
Esse é o tema de Trainspotting.


sábado, 29 de outubro de 2011

Vá fazer uma massagem nos pés!

(Go get yourself a foot massage! Bem melhor né?)


Whatever Works (Tudo pode dar certo) é, simplesmente, um dos meus preferidos do Woody Allen – dentre filmes incríveis de 2002 pra cá (que eu considero, de longe, sua melhor fase). Um filme sobre o rabugento Boris Yellnikoff, nova-iorquino de meia-idade, ateu, anti-social, professor de mecânica quântica, que se acha um verdadeiro gênio em meio a tanta gente ignorante. Um personagem cativante! Então, um belo dia, uma bela garota, Melodie St. Ann Celestine, entra em sua vida de uma forma totalmente inesperada, trazendo consigo toda a sua ingenuidade e ignorância... Bom, no fim, tudo pode dar certo!

Meu corte vai para a primeira cena do filme, onde Boris descasca suas ideologias sobre religião, relacionamentos, normas sociais, natureza humana, trazendo à tona questões como a busca pela felicidade, por uma identidade, pelo significado da existência, que acompanharão o resto do filme (e que me fez querer muito tê-lo assistido no cinema...):



“Todas elas são baseadas na idéia falaciosa de que as pessoas são, essencialmente, decentes. Dê a elas a chance de fazer certo e elas o farão.”

Coisa de gênio mesmo. Boris = Woody?

“E, mesmo assim, (com toda a mania de saúde) ainda chega o dia em que te colocam em um caixão e virá a próxima geração de idiotas que também te falará sobre a vida e definirá o que é apropriado.”

Apropriado??! Jesus... Ai de quem venha me dizer o que é apropriado nessa altura do campeonato! Ai de quem queira tirar o açúcar do meu suco de laranja, o leite condensado do meu chocolate quente, a macarronada super temperada das minhas noites, minhas horas mal-dormidas, e ainda dizer que vive mais quem dorme cedo, acorda cedo e come menos! So what?? Ai de quem! Como diria Pondé, sem abusar da vida, não vale a pena viver tanto.

E a mania de querer ser feliz? De querer agradar?? Jesus em dobro... Pondé também diria que isso é coisa de retardado... E o nosso cativante Boris, que “carisma nunca foi prioridade para mim”. Simples assim!

Uma comédia que me fez chorar, desta vez, de tanto rir (eu, que nem gosto de comédias! Mas adoro rir...). Assistam se quiserem!


domingo, 23 de outubro de 2011

Experimente ler o mesmo livro dez anos depois...

“Uma obra de arte lembra a vocês, o que vocês são agora.” – Kepesh diz.

E assim começa Elegy (ou Fatal, segundo nossos tradutores...). Baseado no romance “The Dying Animal” de Philip Roth, o filme conta a história de David Kepesh, um homem de meia-idade, professor e crítico de literatura, que não se contenta em envelhecer “como outros de sua idade”. Separado de sua ex-mulher, e julgado com rancor pelo filho, confidencia sua vida ao melhor amigo George, e recebe visitas regulares de sua antiga amante Carolyn, sendo incapaz de se comprometer com uma mesma mulher. E nesse contexto, conhece Consuela, sua jovem e bela aluna cubana, com quem passa a ter um relacionamento tão intenso quanto conturbado, na medida em que não consegue lidar com a diferença de idade e expectativas, e com a beleza e juventude que exalam dela.  Um verdadeiro poema lírico sobre desejo e morte. Sobre a fragilidade da existência.

Meu corte vai para duas cenas:
Cena 1 – A surpresa da velhice (“A velhice não é feita para covardes.”);
Cena 2 – A invisibilidade da beleza feminina (“Ficamos tão deslumbrados com o exterior que não exergamos o interior.”).

A primeira cena nos confronta com a idéia do envelhecer conforme os padrões, e nos faz a pergunta: “Pode ‘Guerra e Paz’ tornar-se um livro diferente porque o lemos?”. E se o relermos dez anos depois? Com certeza, quem já leu um mesmo livro com um certo espaço de tempo vai ter a resposta na ponta da língua. E mesmo quem nunca o fez, consegue imaginar o óbvio. E isso vale para um filme, uma pintura, qualquer obra de arte. Mas e se algo dentro de nós nunca mudar? E se nosso corpo decadente continuar a abrigar uma mente em plena ascensão? O que é envelhecer com coragem?



A segunda cena fala sobre beleza. Beleza exterior feminina. Somos sempre vistas como conchas? E o contrário é verdadeiro? Definitivamente não. Mulheres costumam erotizar a personalidade masculina. Uma mistura de inteligência com virilidade. Não ficamos muito tempo contemplando a concha. Ao mesmo tempo em que podemos começar a enxergar pérolas em conchas, à primeira vista, sem charme.



Uma elegia sobre a coragem de um homem sábio em viver seus próprios sentimentos e desejos, ou sobre a sua falta de coragem que passa a ser revista diante da proximidade da morte?

De uma forma ou de outra, um filme que merece ser sentido. Que me fez chorar alguns litros de água (eu, que não choro tanto assim). Estamos envelhecendo...


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Basta! Estou de ovários cheios!

Onírico, crítico e hilário, La città delle donne (Cidade das Mulheres) conta a história de um homem, Snàporaz, que, durante uma viagem de trem, acorda em frente a uma bela mulher (na sua visão de homem) que flerta com ele, sutilmente, sendo esta, motivação suficiente para que ele a persiga fora do trem (mesmo o trem tendo parado no meio do nada), seguindo-a através da mata até chegar a um hotel, onde está acontecendo um congresso feminista. E aí começa a aventura: Snàporaz é perseguido por uma mulher grande e sexualmente agressiva, por adolescentes lésbicas e drogadas, pela polícia feminista, pela esposa insatisfeita, sendo, finalmente, levado a conhecer a mulher ideal, que não dura muito... Uma viagem por todas as mulheres de sua vida, e pelas mulheres rotuladas pela visão feminista: as que odeiam homens, as putas e as maternais. Uma fantasia que brinca com a fantasia do homem em relação à mulher... Fantasia e medo. Mais um filme do gênio.

Me desculpem as feministas fervorosas (feminismo virou religião?), mas... não dá pra engolir igualdade entre os sexos, sutiãs queimados, nem rivalidade com os homens. Acho que somos mais inteligentes do que isso. O problema é que os homens sempre tiveram medo de mulheres inteligentes... (leia "Femmes aux hommes").

Sem querer tirar o mérito de anos de luta pela redução da opressão ao “sexo frágil”, não somos um sexo frágil. Nem de longe. E queremos homens em nossas vidas. E nada de homens fracos (leia Do batom vermelho no trabalho).

Como diria minha amiga, “o feminismo foi iniciado por mulheres altamente reprimidas que na ânsia de liberdade confundiram características femininas com fraqueza. Não somos homens, não queremos ser como homens e não queremos que homens se comportem como mulheres”.

Meu corte vai para a convenção de feministas, da vagina ao manicômio (!):



“Casa sem mulher, dizem na minha terra, é como um mar sem sereia.”

Imagine viver numa Cidade das Mulheres... Nem a pau! (Oops... sorry!)


domingo, 2 de outubro de 2011

Se tivesse menos ansiedades morais, teria sido excelente

Com roteiro de Bergman e dirigido pela sua ex-mulher e ex-musa, a atriz e diretora Liv Ullmann, Trolösa (Infiel) é um filme de caráter quase autobiográfico, para ambos os lados: Bergman teve um relacionamento com uma mulher casada, que acabou em gravidez e em briga na justiça entre ela e o marido traído pela guarda dos filhos, enquanto Liv deixou o marido para viver com o diretor, com quem também teve uma filha. A arte que imita a vida. E por isso mesmo, um filme forte, sincero e destruidor.

Infiel conta a história de Marianne, uma atriz casada com o maestro Markus, com quem tem uma filha, Isabelle, e uma vida feliz, incluindo aí elementos como sucesso profissional, bens materiais, amor, sexo. Tudo em abundância. Mas um dia, tomada por uma paixão inexplicável e imprevisível, Marianne passa a ter um relacionamento secreto com David, um homem neurótico, ciumento e autodestrutivo, e o melhor amigo do marido. E aí começa a tragédia: desejo cego e incontrolável, traição, obsessão, dependência da paixão romântica, omissão, descoberta da infidelidade, humilhação, disputa pela guarda da pequena Isabelle, divórcio, culpa e dor. Muita dor. No fim, são todos infiéis. E só o que sobra (na ficção) é Isabelle. E (na realidade da ficção) o velho diretor, que traz à tona a existência de todos os personagens.

Meu corte vai para a cena em que Marianne reconhece a contradição em que vivia (seguida da descoberta da traição pelo marido e início da tragédia):

“Eu tinha dois homens. Foi mais fácil do que pensei. Se tivesse menos ansiedades morais, teria sido excelente. Até mesmo divertido.”



Somos mesmo, assim, tão dependentes da paixão, do amor romântico? Ou melhor: o ser humano vive sem ele? É inesperadamente acometido por ele, como um vírus que se pega pelo ar? Ou está sempre buscando-o?...

Há quem diga que o amor romântico seja como uma doença (leia Heloisa)... concordo.

E quanto ao nosso comportamento sexual enquanto espécie humana? Somos uma espécie monogâmica? Poligâmica? Onde entra a infidelidade? Há quem diga que na escala da poligamia, estamos exatamente no centro. Nos 50%. Em cima do muro. Um pouco pra direita e nos tornamos poligâmicos como o roedor da montanha (Microtus montanus). Um pouco pra esquerda e seremos monogâmicos como o roedor da pradaria (Microtus ochrogaster). Daí a eterna insatisfação... (leia O enigma da monogamia, apenas como curiosidade...).

De fato, inúmeras pesquisas são realizadas e artigos não param de sair sobre o tema. Com resultados diversos. Mas desvencilhar “natureza” de “cultura” é um pouco mais complicado... Daí as “ansiedades morais”, que surgem da contradição de um desejo físico e emocional a um comportamento adequado e moral.

“Eu me repreendo. Eu devia estar contente.” – Marianne diz.

Uma coisa é certa: se o amor romântico chega, ele arrebenta. Mas se chega, é porque deixamos ele chegar.