sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Não Tenho Problemas Com Drogas, Só Tenho Problemas Com a Polícia.

Esta é só uma frase de efeito que um professor me falou, não acredito que ele use drogas nem que tenha problemas com a polícia.
Pensando sobre isso, cito um trecho do livro de Rubem Fonseca (O Caso Morel) onde um personagem fala:
"Todo maconheiro é um medroso: pequenos atos ilícitos, pequenas imoralidades, pequenos desconfortos, pequenos riscos. Já passei por isso."
De fato, nunca vi nenhum maconheiro ter problemas com drogas, a não ser ficar meio letárgico, mas isso não parece ser um problema para ele. Claro que tem aquelas pessoas que são indiretamente afetadas pelos maconheiros, eu por exemplo, que nunca coloquei um cigarro de maconha na boca, já fui uma vítima clássica: Uma garota, amiga minha na época do ensino médio, quando fumava um baseado com os amigos maconheiros dela, sempre acabava com TODO o meu lanche que eu levava para a escola (um cereal chamado muslix que deveria durar a semana inteira, mas não durava). Coitado de mim.
Mas sim, estas pessoas do bem tem problemas com a polícia, basta olhar as letras do Planet Hemp reclamando malandramente que tem que jogar o bagulho dele na descarga sempre que a polícia invade a CASA dele em busca de alguma picaretagem. Além de uma outra história aqui ou ali de pessoas pouco confiáveis.
Tenho muitos amigos que fumam, principalmente morando nesta Marijuanaland que é Campinas - Barão Geraldo - Unicamp, onde você pode arranjar maconha em qualquer lugar "de boa". Para saber onde comprar basta aparecer em alguma festa da Unicamp ou perguntar para algum segurança que trabalha no campus (É SÉRIO!!!). Mas quando você mora no Rio de Janeiro e vê o "movimento do trafico" descendo o morro para matar motoristas de ônibus e mandando fechar o comércio no centro do seu bairro, quando seus amigos ficam com medo de sair de casa por causa de bala perdida, você começa a pensar, "Porra, ou legaliza logo essa merda ou pára de fumar maconha aí, por que assim já tá foda!"
Vamos ver aquela [mais clássica de todas] cena em que a gente se pergunta se o problema é a polícia ou o maconheiro.
Quem é que matou esse cara?



sábado, 24 de setembro de 2011

O sonho de sair do sonho americano

Revolutionary Road (Foi Apenas um Sonho) conta a história de um casal, Frank e April Wheeler, com dois filhos, que levam uma vida aparentemente perfeita aos olhos da sociedade americana dos anos 50, sendo, contudo, infelizes em seu casamento.  April é dona-de-casa e atriz fracassada, enquanto Frank é funcionário da empresa Knox, e odeia seu trabalho. Após sete anos de casados, buscando desmitificar a ilusão de que as pessoas têm que abdicar da vida e se estabelecer quando têm filhos, April tem a idéia de se mudarem para Paris, onde ela arrumaria um bom trabalho fora de casa, enquanto Frank teria tempo para pensar e começar um novo trabalho em algo que ele apreciasse.

“É irreal para um homem com uma mente boa trabalhar ano após ano num trabalho que ele não suporta. Viver num lugar que não suporta, com uma mulher que não suporta as mesmas coisas.” – April diz.

E assim começa a sua busca pelo sonho de sair do “sonho americano”...    

Meu corte vai para 3 cenas:

Cena 1 – A reprovação do sonho pela sociedade (“Que homem fica pensando na vida enquanto a mulher vai trabalhar?”);
Cena 2 – O conflito dentro dela (“Não posso partir. Não posso ficar.”);
Cena 3 – A verdade escancarada por um louco (“Percebeu que é mais confortável aqui no velho vazio sem esperança?”).

A primeira cena mostra algumas barreiras que a sociedade cria ao ser confrontada com a idéia de mudança, já que é “imaturo” viver fora dos padrões, e desejar a liberdade de fazer o que gosta. As pessoas não querem sair da sua “zona de conforto”; preferem viver a ilusão de uma sociedade livre e perfeita. A cena termina com um ato que servirá de pretexto para o fim do sonho e retorno à “zona de conforto”:



A segunda cena retrata o início do conflito que se instala dentro de April, com o fim do sonho de uma nova vida imaginada por ela. Assim, ela se vê num beco sem saída: não poderá partir para a nova vida junto com o marido e os filhos, e não conseguirá, ao mesmo tempo, continuar a vida que seu marido escolheu para eles. Ser casada e ter dois filhos – não é suficiente para ela:



A terceira cena começa com a exposição da primeira decisão tomada a partir do conflito interno de April – a de que ela não ama mais o seu marido; e termina com a verdade por trás dos fatos sendo reconhecida e escancarada pelo personagem menos provável, aquele considerado o “louco” da história: 



Um filme que revela a hipocrisia do começo ao fim, e a ilusão de liberdade em uma sociedade onde o “sonho americano” pode não servir para todos.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

É fácil dizer "não"?

Hair, baseado em musical homônimo (Hair: The American Tribal Love-Rock Musical), retrata de forma única a contracultura hippie dos anos 60, anti-Guerra do Vietnã e anti-capitalismo. Neste cenário, o filme conta a história de Claude, um jovem humilde de Oklahoma, que, convocado para a Guerra do Vietnã, vai à Nova York para conhecer a cidade antes da guerra, mas o que acaba conhecendo é um grupo de hippies dispostos a lhe apresentar um novo estilo de vida, um tanto diferente do seu – uma vida de sexo livre, drogas, desprendimento material e familiar, em busca de “paz e amor”. Cabelos compridos contra curtos, roupas coloridas contra ternos monocromáticos, pacifismo contra alistamento militar obrigatório, amor-livre contra casamento, modo de viver alternativo contra o “american way of life”. Orgulho negro, homossexualismo, nudez, rock’n’roll, liberdade... E no meio disso tudo, uma mulher grávida de um lado, que não se importa em saber quem é o pai da criança, e uma mãe, de outro, suplicando a presença do pai do seu filho... Abro aqui, então, o tema liberdade (já comentado em Persépolis), ao lado de outros filmes como Easy Rider, Into the Wild, One Flew Over the Cuckoo's Nest, The People vs. Larry Flynt, Manderlay, Revolutionary Road, American Beauty (que terão postagens próprias)... Todos eles sobre formas, graus e lados de um mesmo conceito. 

Qual o preço da liberdade? E da responsabilidade? Quanto romper com uma sociedade conservadora, de desigualdades, injustiças, ilusões, consumismos, “direitos e deveres”, falsos moralismos, não é também romper com o próprio ser humano? Quanto romper com o sistema não é hipocrisia? Egoísmo? Uma segunda ilusão?...

Como falar em “consciência cósmica”, justiça social, amor à humanidade (??!) e negar um filho? Quanto dizer “não” é mais fácil que aceitar o outro (e a si mesmo)?

Meu corte vai para a cena que questiona a liberdade, o outro lado da moeda:




domingo, 11 de setembro de 2011

Seria ótimo se você pudesse... ser meu amigo

Mary e Max, Uma Amizade Diferente (como acrescentam nossos tradutores): um filme onde personagens feitos de argila conseguem transpor para a tela seus dilemas mais profundos e se tornarem tão humanos quanto os personagens da vida real. Inspirada em fatos reais, a animação conta a história de Mary Daisy Dinkle, uma australiana de 8 anos, filha de mãe alcoólatra e pai ausente, que, em busca de amizade, começa a se corresponder, ao acaso, com Max Jerry Horowitz, um nova-iorquino de 44 anos, judeu-ateu, solitário, obeso e que sofre de um tipo especial de autismo.     

Uma história sobre solidão, medos, dificuldade de interação social, bullying, síndrome de Asperger, amor, aceitação, confiança, depressão, perdão e amizade. Meu corte vai para a primeira troca de correspondências, o início da inesperada amizade:




segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A liberdade sempre tem um preço

Persépolis tem como fundo o cenário político do Irã entre o final dos anos 70 e início dos 90, desde a queda da ditadura do Xá até a Revolução Iraniana, a instauração do regime islâmico fundamentalista e repressor, e a Guerra contra o Iraque. Neste contexto, o filme conta a vida de Marjane Satrapi: a sua infância no Irã junto aos pais, intelectuais de esquerda, e à avó materna, sua melhor amiga; a sua adolescência na Áustria, onde foi “exilada” pelos pais e viveu seus maiores conflitos; seu retorno ao Irã, seguido por uma depressão, pelo ingresso na universidade, casamento, divórcio; e sua ida definitiva para a França. Uma história sobre família, repressão religiosa, contestação, censura, violência, perdas, descoberta do amor, infidelidade, amizade, preconceito, depressão, arte e liberdade.

A cena que escolho mostra alguns momentos antes do “exílio” de Marjane na Áustria, passando pela sua indignação frente ao novo regime dos aiatolás e pela realidade vivida pelas mulheres naquele Irã. A cena termina com um conselho da personagem mais cativante do filme (e da vida de Marjane), que faz a diferença em várias passagens de sua autobiografia. Mas isso é só a minha opinião. Como fã incondicional de quadrinhos, recomendo os quatro volumes da graphic novel Persépolis, ou a sua edição única, recentemente lançada. Sem igual.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Bêbados velhos, velhas mágicas e uma nova amizade

No mesmo estilo de Les triplettes de Belleville, L'illusionniste (O Mágico) é também um contraponto silencioso entre o velho e o novo, entre o humor ingênuo à moda antiga e a modernidade pop e consumista. Mas neste caso, ao invés de vencer, o velho aceita o novo. Uma história triste, mas muito bonita (foi essa a primeira palavra que me veio à cabeça assim que o filme acabou). A história de uma amizade que nasce do imprevisível entre um mágico decadente (o velho) e uma garota pobre (o novo), durante a sua luta desesperada, mas determinada, para manter a profissão. Meu corte vai para a velha hospedaria escocesa, cheia de bêbados e humor, onde a amizade começa: